terça-feira, 4 de março de 2008

Polska

Ela era uma rapariga complexa. Desejava mortíferos bons dias aos seus melhores amigos, desprezava-os.
Juntava-se a eles apenas pelo prazer de algum tipo de interacção e afastava-se num clarão sempre que precisava. Sabia que a sua língua era capaz de imitar várias linguagens mas reserva-se apenas à sua. Vestia usualmente os mesmos trapos: umas calças largas cor de melancia e um casaco obsoleto verde escuro prendido em enormes botões como olhos quietos de plástico.
Tinha assim, pequenas obsessões. umas mais fortes do que as outras.
Mordiscava os dedos com impressionante força até sentir a mão inteira paralisada. Mas não o fazia sempre. Apenas nalgumas sextas-feiras. Se estivesse frio. E só se tivesse verniz roxo posto.
Também se apaixonava muito facilmente, mas apenas por personagens secundárias em filmes de luta. Normalmente filmes de ninjas. O ecrã entusiasmava-a mais do que simples carne e osso.
Nem notava toda a falsidade e maquilhagem que fluía das imagens.
Às vezes treinava cleptomania em restaurantes finos. Todos pequenos hábitos. Hábitos e argumentos que a acompanhavam.
Eram 11 e 36 e ela continuava numa aula. Mesas repetidas esvoaçavam no compartimento e as paredes começavam a avançar. Sentia-se feia. Feia na sombra. Tão feia que nem parecia ela.
Afundar-se em lições suga qualquer possibilidade de beleza. Pensava em idealizações arcaicas, murais e ruínas, algo que a espevitasse, que a levasse. Era a Polónia. Desde pequena que coleccionava tudo sobre a Polónia, se é que há muito a coleccionar sobre um país que passa tão despercebido. Música e postais, delícias e recordações. Era razoavelmente inconsciente esse desejo de hipnose livre, esse altruísmo desesperado por um país. Mas ela segurava-o.
Há sempre a tendência de acreditar nas nossas certezas. O que não temos, é sempre, absolutamente, totalmente melhor do que o que não temos. É a maldição de pensarmos.
E ela pensava. E ela sonhava. E na sua arrogante timidez acreditava.
Claro que acreditava.

4 comentários:

nenúfar disse...

"é a maldição de pensar".
hm hm, é sim *

Anônimo disse...

enquanto te afastas... eu fico a olhar para a tua nuca (que, no fim de contas, é o pouco que vejo de ti, quando vejo).

Flávio Neto disse...

Toda a gente tem os céus hábitos, não é?
Os dela até parecem normais, vistos de uma perspectiva pós modernista...
Gostei, gostei mesmo da estória...
Keep it up!

Flávio Neto disse...

É mesmo um rapariguinha complexa, a apaixonar-se por personagens secundárias em filmes de ninjas...
Fica a questão, se se eu fosse um ninja polaco, será que ela gostava de mim?
...
keep it flowin'