sábado, 8 de março de 2008

Ampulheta Artificial

Razoavelmente normal, era o que costumavam dizer dele.
Que era razoavelmente normal quase a entrar nalgum tipo de padrão de aceitação.
Andava cabisbaixo várias vezes, murmurando de forma imperceptível e atrapalhada os jingles da monótona publicidade.
As suas calças faziam um ruído irritante quando se tocavam, o som de faíscas subvalorizadas.
Hoje era Inverno e estava um sol que ameaçava derreter todo o metal contido na paisagem.
Mas podia estar uma chuva tendenciosa que não interessava, de qualquer maneira.
Ele não se preocupava com as coisas que não podia mudar.
O que era uma grande vantagem. Contornava qualquer complicação e as suas manias pareciam-lhe sempre naturais, não se sentia mais fraco ou menor ao optar por outras vias.
Não questionava os seus gostos e atitudes. Adorava mexer-se nos desígnios que criara.
Gostava de muitas coisas, talvez demasiadas e era obsessivo nas suas intermináveis compras.
Na música só ouvia vinil o que constituía um passatempo trabalhoso. Mas era uma razão.
Mais uma. Para algo. Fascinava-se pelas capas enormes, pela simples crueza crepitar do lento rodar da agulha. Ele gostava de pensar que era como eles. Adorava ter essa razão.
Preparava-se para trabalhar, enfeitava-se cautelosamente. Fato completo de azul preto fulminante, cabelo mergulhado quieto em cima e uma mancha avermelhada no esquerdo superior da camisa. Não a questionava. Não precisava. Estava imaculado com uma ligeira imperfeição. Mas podia estar imperfeito com uma ligeira mácula que não interessava, de qualquer maneira. Ele não se preocupava com as coisas que não lhe apetecia mudar.
Chuva na estrada lá fora. E lá fora a estrada era rebelde. A velocidade do jogo frenético repleto de consumismo e nervosismo, olhares fixos e insensíveis começava a desgastar. Toda a cidade. Um espelho na noite, estava na altura da avaliação diária, o confronto consigo mesmo. Fitava-se continuamente até se esquecer que estava a observar a sua cara. O exercício do anonimato consciente. Dera-lhe esse nome há dois anos atrás e continuava válido. Mas hoje decidira algo diferente. Fingiu-se de escuridão. Abriu um buraco em si mesmo e afundou-se no chão.
Via o Futuro a repetir-se uma vez e outra. Devagar e outra, rápido e outra. Vez.
Acabou. Na esquerda da curva menos livre só fica mesmo o asfalto.
Mas não interessa, de qualquer maneira. Ninguém se preocupa com o que não sabe mudar.

2 comentários:

Lira disse...

bu

*

Flávio Neto disse...

E o que é que podemos de facto mudar?
Nice, gostei
keep it up!